quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Meu pedacinho de terra e a Constituição


A maioria das pessoas cresceu sabendo da importância de se ter um pedacinho de terra, uma moradia. E aprendemos junto com isso, que se pudesse ser um pedaço maior de terra, um apartamento ou casa maior, seria melhor ainda.

Culturalmente fomos assimilando a necessidade de possuir nosso metro quadrado de terra. Nossos antepassados pensavam em produtividade, além de moradia. Mais do que um teto, um chão de onde tirar o alimento.

E a legislação que foi sendo aprovada com o tempo sempre destacou a produtividade como critério: o terreno sem edificação e que não produz nada tem cobrança maior de impostos e o aluguel permite que o locatário usufrua dos frutos e de tudo que a terra produzir, por exemplo.

Mas em 1988, a Constituição incluiu um conceito muito mais amplo do que produtividade: a função social e ambiental da propriedade.

  
Isto porque, como qualquer recurso natural, o espaço em nosso planeta é finito. Há lugar para todos, mas com o incremento da população, é necessário que os espaços sejam otimizados.

Com o capitalismo e o alto valor que um pedaço de terra passou a ter, muitos passaram a ter mais que um pedacinho. Foram adquirindo mais e mais pedaços de terra. Literalmente, acumulando terras. Como aqueles que acumulam tralhas dentro de casa.

E é justamente neste ponto que a Constituição pretendia tocar: se você é um acumulador de terras, temos que verificar o que você tem feito com ela.


A função social e ambiental tem a ver com a destinação que é dada ao terreno. O simples acúmulo não se justifica, sendo necessário que o proprietário tenha consciência de todos os demais habitantes deste planeta e da necessidade que temos de compartilhar um espaço e mantê-lo habitável.

Na zona rural a produtividade continua sendo um critério, mas na zona urbana, o que se tem como ideal é o que consta do Plano Diretor do Município. O Plano Diretor dirá se você pode ter um comercio naquele bairro e em que área é possível instalar uma fábrica, por exemplo. É a lei municipal que regula o uso do solo e a sua utilização.


Você recebeu o direito quase que exclusivo sobre aquele pedacinho de terra, mas com relação ao todo, ao meio, você ainda é um zelador. Além a quem foi dado o direito de usar, mas que sabe que seu uso deve ser feito com responsabilidade.


Como se vê, a Constituição é um documento que é mais que uma lei. Na verdade ela diz de que forma devemos olhar para cada um dos aspectos da nossa vida como cidadãos. Ela concede direitos e também informa responsabilidades. Ela aponta os valores que foram eleitos por nós, como sendo aqueles que queremos ver respeitados em primeiro lugar.


Clique aqui para ler mais artigos de Janaína Helena Steffen


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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Um encontro de ações em defesa da Vida

Reprodução: Tamera Healing Biotipe I - Portugal. Imagem: Ludwig Schramm

Ativistas do mundo inteiro foram convidados a colaborar e compartilhar suas experiências em ação, intenção, arte e manifestação política durante a conferência "Defesa do Sagrado: Imaginar Uma Alternativa Global”.

O evento reúne, durante 10 dias, ativistas do Quênia, África do Sul, Egito, Índia, Palestina, Israel, Colômbia, Peru, Bolívia, México, Argentina, Brasil, Guatemala, Filipinas, Inglaterra, Espanha, Portugal, Alemanha, Estados Unidos e Canadá.



Este encontro está sendo realizado na comunidade Tamera (Portugal), um centro de educação dedicado a explorar e nutrir a paz. A beleza da terra é indescritível, repleto de água e verde, movida a energia solar e biogás. A comunidade de residentes, através de um processo participativo chamado Fórum, decide coletivamente o futuro e o presente de Tamera.

Desafiando paradigmas sociais e econômicos a comunidade atua a partir de princípios ecológicos. Por exemplo, toda a alimentação na comunidade é orgânica e plantada na própria região pelos residentes ou produtores regionais de Portugal. Todos os banheiros são secos, ou seja, sem água, fazendo uso do processo de compostagem. Para conhecer mais sobre Tamera, clique aqui.


Vista aérea de Tamera. Imagem: Tamera Healing Biotipe I - Portugal

O seminário começou no dia 07 de Agosto e tem duração de 10 dias. Entre painéis, debates, rodas de conversa e palestras fomos recebidos com muita música e manifestações artísticas. A presença de cerimônia, sons, cantos, instrumentos e movimentos corporais em um evento como este é fundamental para que possamos ir além do nosso intelecto e da esfera das ideias. Uma das armadilhas que nós, ativistas, podemos cair é o excesso das críticas ao sistema e a falta de ação prática e pragmática em prol da transformação.

Para evitar este sentimento de estagnação e nos colocarmos a serviço da terra que nos recebe, Portugal, nós co-criamos com o artista John Quigley uma grande arte corporal na praia de Odeceixe. Com mais de 500 pessoas reunidas nós realizamos uma ação em defesa dos oceanos e da costa Portuguesa, que no momento esta sendo ameaçada e depreciada devido à exploração petrolífera.



Com nossos corpos escrevemos na areia da praia, aonde o rio encontro o mar, nossa mensagem. O evento foi muito emocionante, estar reunido com tantas pessoas em prol de uma mesma causa é um sentimento de muita união e esperança.



Tamera recebeu no total 150 pessoas para o seminário. Fui convidada para compartilhar minha experiência na Amazônia brasileira e jornada como ativista e ecologista social. Fico muito honrada com o convite e quero manifestar aqui meu profundo respeito pelo trabalho de todos os ativistas e participantes que dedicaram seu tempo e energia a este encontro. Espero quando este encontro terminar contar as histórias transformadoras aqui no Autossutentável.

Reflexões importantes foram feitas durante o seminário, enraizado na sabedoria indígena e inspirado pelo caso de Standing Rock nos Estados Unidos. O primeiro painel foi dedicado às manifestações políticas de não violência nos Estados Unidos em resistência ao Oleoduto de North Dakota. Guiados pela fundadora do movimento LaDonna Brave Bull, anciãos e jovens indígenas norte americanos fomos todos convidados a questionar o que significa agir em defesa do sagrado.


Durante as refeições, círculos de conversa se formavam em torno de assuntos como autonomia alimentar, novas formas de economia, democracia participativa e a viabilidade de fontes de energias renováveis. Com o cuidado de não idealizar este diálogo, muitos projetos e estudos de caso foram abordados. Questionamos como criar ações recorrentes, empoderando as comunidades locais, para criar resultados sólidos e duradouros.

A conferência seguiu com painéis divididos de forma geopolítica. A segunda sessão abordou a violência urbana de São Paulo, Colômbia e Quênia. No dia seguinte as questões do Oriente Médio foram trazidas para a discussão, com ativistas israelitas e palestinos. Testemunhar um debate tão caloroso e amigável entre tamanhas nações foi um momento único que reforça o nosso potencial para administração de conflito e a vontade de encontrar a paz.



Ponderamos sobre a diferença entre um objetivo e um propósito. Conversamos sobre identidade, ancestrais e história. Foi oferecido um espaço para abordar o papel do feminino e masculino, e do papel da mulher na construção de uma nova sociedade. Inspirados por diferentes nações indígenas e pelo poder de oração realizamos cerimônias junto ao nascer do sol e com a lua cheia.

Imagem: Ivan V. Juric

O seminário ainda não chegou ao fim, mas a certeza de que precisamos de suporte ao redor do mundo para criarmos a realidade que queremos está cada vez mais presente. Antes mesmo do fim da conferência já pude perceber como nossos espíritos estavam mais fortes, mais enérgicos e preparados para enfrentar novos desafios. Nutrimos a certeza de que existe um novo movimento se formando, e juntos, podemos colaborar para fortalecer esta transformação.

Para acompanhar painéis online do seminário e assistir aos vídeos de palestras, visite: Tamera.

Você também pode acompanhar o evento pela página oficial de Tamera no Facebook: Tamera Healing Biotipe I - Portugal. 



terça-feira, 8 de agosto de 2017

O poder de transformação do terceiro setor: conheça as melhores ONGs do Brasil

Imagem: Twitter. Adaptação: Autossustentável

As Organizações Não Governamentais possuem um papel muito relevante com relação aos direitos humanos, igualdade de gênero e proteção ambiental. O terceiro setor possibilita ainda geração de renda e promovem melhorias na saúde, educação, habitação, cultura, e outras diversas áreas importantes para o desenvolvimento de um país mais justo e igualitário.

Existem mais de 300 mil ONGs no Brasil, e diante deste cenário, a revista Época e o Instituto Doar, através de uma iniciativa muito bacana, criaram um guia com as 100 melhores ONGs no país, avaliando as práticas de gestão e transparência, com objetivo principal de incentivar a cultura de doação no país. Segundo o Instituto Doar, mais de 400 mil exemplares da revista estarão disponíveis para se tornar o guia de quem quer conhecer ONGs de todos os estados e áreas de atuação. Para visualizar o material clique aqui.

Imagem: Linkedin

Foram mais de 1500 organizações inscritas para o processo. A comissão de avaliadores é composta por representantes da ÉPOCA, do Instituto Doar e do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo da Fundação Getúlio Vargas. Os critérios de avaliação levaram em conta cinco princípios gerais: causa e estratégia, representação e responsabilidade, gestão e planejamento, estratégia de financiamento, e comunicação e prestação de contas. Para conhecer as organizações vencedoras clique aqui.
Imagem: Clipart Library

Conheço algumas das organizações vencedoras e fico feliz que tenham o reconhecimento que merecem. Todo apoio e ajuda é bem vindo para as ONGs, e espero que outras também tenham a oportunidade de se destacar e seguir na luta pelos seus propósitos. Vou aguardar para garantir um guia pra mim!


Clique aqui para ler mais artigos de Aline Lazzarotto


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mas afinal de contas, o que é sustentabilidade?

Imagem: Desarrollo Sustentable. Adaptações: Autossustentável

Tenho atuado como formador de professores dos Ensinos Básico e Universitário em Educação para a Sustentabilidade há um tempinho. Uma das questões recorrentes durante esse período é: “o que é sustentabilidade?”.

Já tive a oportunidade de escrever aqui no Autossustentável sobre a importância de não permitir que a busca de uma definição formal seja imobilizadora. De um jeito ou de outro, temos nossas visões do que é ou não sustentável. No fundo, é isso que importa.

Mas enfim, se a definição se faz tão necessária, acho que eu definiria sustentabilidade como “a busca permanente da manutenção dos processos tipicamente humanos (culturais, políticos, econômicos, sociais, etc.) sem que estes prejudiquem e, idealmente, melhorem, os processos biogeoquímicos, garantindo a manutenção e aumento da diversidade e da biodiversidade”.

Imagem: Generate Land

Toda definição, por definição, engessa as possibilidades, por isso, tenho seguido a linha de que sustentabilidade é um valor, e não um conceito.

Ao ler essa definição, a contra-argumentação lógica está ligada à utopia. Ou seja, não conseguiremos manter os processos humanos e, ao mesmo tempo, melhorar, os demais ligados a terra e manutenção da vida em todas as suas formas. Pelo menos não dentro do modelo civilizatório em curso.

Imagem: Cultura Mix

Se considerarmos essa visão de sustentabilidade utópica, o que estamos buscando, afinal? Muitos autores têm sugerido a substituição de sustentabilidade por resiliência, por ser um conceito mais bem compreendido e advinda da reconhecida Ecologia, ou das Ciências Biológicas, de maneira mais ampla.

A ideia parece boa a princípio, mas autores conceituados como Arjen Wals, só para citar um, tem criticado duramente essa substituição, afinal, ser resiliente diz respeito, grosso modo, à capacidade de restauração frente a um impacto.


Entretanto, o ideal é que o impacto não ocorra. Resiliência, portanto, abre a porta para uma possibilidade que não gostaríamos de considerar em sociedades realmente sustentáveis.

Para continuar, e finalizar a lista de jargões e conceitos, apresento um que me agrada: regeneração. Estamos vivendo um momento de transição, que gera conflitos e, ao mesmo tempo, alternativas.

Talvez precisemos primeiro buscar a regeneração daquilo que já está prejudicado, incluindo o ambiente e muitos de seus processos biogeoquímicos e, para além do exterior, regenerar a nós mesmos, nossos laços de confiança e cooperação na busca por um novo sentido à existência.

Imagem: Campos de Boaz

As inúmeras crises são humanas, nascem conosco e precisam ser regeneradas antes de evoluírem e gerarem um novo estado mais equilibrado, equitativo e harmônico. Talvez nesse momento poderemos, sem culpa ou dúvida, falar em sustentabilidade.

PS. Gratidão ao Monge Jorge Koho pela inspiração.
   




terça-feira, 1 de agosto de 2017

A importância da diversidade para um futuro melhor (distribuído)

Imagem: Tikachu

O renomado escritor em ficção científica e visionário de tecnologia William Gibson alertou: "O futuro já chegou, só ainda não está bem distribuído".
  
Imagem: Alexandre Beck

A constatação vem a partir de uma realidade onde o melhor oncologista do mundo já é uma inteligência artificial (AI), ao mesmo tempo em que existem 4 bilhões de pessoas sem sequer acesso à internet. A chave da questão pode estar justamente em um erro recorrente de muitos de nós: ignorar as diferenças.

Quando uma nova tecnologia surge, ela será o resultado de quem a criou – uma das valiosas constatações do curso de futurismo da Perestroika (recomendo!). Logo que os airbags passaram a ser comercializados para o mercado, em meados de 1970, houve momentos de horror. Ao invés de salvar vidas em colisões de automóveis, mataram diversas pessoas, a maior parte mulheres e crianças. Isso porque a força com que o airbag as atingia era fatal ao seu biotipo. Mas como, se isso é algo facilmente detectável em testes?


A questão é que não havia nenhuma mulher no laboratório de testes. E quando havia, dificilmente era escutada a ponto de mudar a lógica predominante masculina. Não era um local para as mulheres estarem. Enquanto isso, homens brancos, com privilégios, construíam um equipamento de segurança mortífero por ignorarem que existem pessoas com pesos, alturas e massas corpóreas diferentes.

Parece insano e é. Mas isso continua acontecendo hoje, em muitas equipes de trabalho. Basta olhar para o lado para ver cores iguais, roupas iguais, ideias e pensamentos iguais – ambiente altamente tóxico para a evolução e a distribuição de conhecimento.

Imagem: Twitter

Comprovadamente, times diversificados têm uma visão mais abrangente e empática dos fatos e um poder de inovação maior que qualquer outro. Quando colocamos juntas, num mesmo propósito, pessoas de diferentes vivências, classes sociais, visões de mundo, gênero e cultura aumentamos exponencialmente a chance de um projeto urbano, produto ou serviço ser bem sucedido. É justamente na interseção entre diferenças e propósito comum que o melhor acontece.

Imagem: Love Mondays

Imagem: BBC

A teoria não é uma novidade, mas a prática vem ganhando força com a ascensão de iniciativas globais e grupos independentes. O Black Girls Code e o brasileiro Minas Programam são exemplos de movimentos de empoderamento da mulher negra num universo bem nichado e ainda hostil a elas, o da tecnologia. As iniciativas oferecem apresentação de conceitos em programação, treinamentos e qualificações para meninas que dificilmente encontrariam o mesmo espaço em outros lugares.
  
Organização norte americana Black Girls Code. Imagem: Good Black News

Reprodução: Revista Fórum. Imagem: Minas Programam

O próximo passo é colocar essas meninas e tantos outros grupos diversos para dentro das equipes e organizações que estão construindo e distribuindo o nosso futuro hoje. Só assim vamos começar a diminuir esse abismo e nos aproximar, um pouco mais, de um desenvolvimento mais sustentável, humano e próspero.