quinta-feira, 25 de maio de 2017

O que representam R$ 38,1 bilhões?

Imagem: The Budapest Beacon

É impossível no atual momento do Brasil não falar sobre o tamanho da corrupção que, dia após dia, vem vindo à tona a todos nós.

A mais famosa ação de combate a este mal, a Operação Lava-Jato, tem um interessante resumo com os principais números decorrentes de suas ações. Um desses números, especialmente, salta aos olhos: R$ 38,1 bilhões, este é o valor total do ressarcimento pedido (incluindo multas).

Imagem: Twitter


Este é o montante absoluto sobre o qual estamos falando (nesta operação). É um número tão abissalmente grande que foge a nossa realidade cotidiana. Uma forma de nos atinarmos ao quão estupendo é este valor seria compará-lo a itens mais comuns de nosso dia-a-dia, mas sendo respeitoso a vocês, leitores, comparemos a alguns outros números mais relevantes.

R$ 38,1 bilhões é o equivalente a 38 vezes o orçamento do Ministério do Meio Ambiente em 2016 (R$ 1,01 bi); ou 86 vezes o orçamento do mesmo ministério após os últimos cortes deste ano (R$ 446,5 mi). É também equivalente a quatro vezes e meia o gasto brasileiro em seu maior investimento individual de defesa aérea, o SIVAM (R$ 8,4 bi, em valor corrigido) – instrumento fundamental, hoje, para o combate ao desmatamento da Amazônia.

Mapa do desmatamento na Amazônia Legal. Imagem: Fonte: G1 / Reprodução Imazon

O montante de R$ 38,1 bilhões é equivalente a 86 anos de pagamento de outorga pelo uso da água de bacias federais (aproximadamente R$ 439 mi/ano). Equivalente a 82 anos de funcionamento do IBAMA (R$ 466 mi/ano). Equivalente a 110 Agências Nacional da Água (R$ 347 mi) ou 6.145 Jardins Botânicos do Rio de Janeiro (R$ 6,25 mi). Equivale a 952 anos de esforços de combate às mudanças do clima (R$ 40,7 mi/ano).

Vista aérea de área desmatada no município de Novo Progresso, no Pará. Com menos verbas para o combate, desmatamento na Amazônia sobe 29%. Fonte: O Globo/ Reprodução: Ueslei Marcelino/Reuters

Se considerarmos apenas o serviço de regulagem do clima global da Amazônia, R$ 38,1 bilhões equivale a perda de 28 mil km² de área florestal (ou 4 milhões de campos de futebol). Equivale ainda a quase 4% de todo o montante global que girou em torno de financiamento climático em 2014 (R$ 1,2 tri).

Trinta e oito bilhões e cem milhões de reais é muita, mas muita coisa! E seria já assombroso se não tivesse sido roubado de nossos cofres ou influenciado a nossa vida política em favor de pouquíssimos.

Imagem: Reprodução Youtube

Ao que tenhamos dimensão do montante envolvido na corrupção em nosso país talvez estejamos um passo mais próximos a impedir que as mesmas figuras tenham a mesma capacidade para executar as mesmas manobras. Ou assim espero.

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terça-feira, 23 de maio de 2017

Castigar é mais eficaz do que colocar limites?

Imagem: Na Toca da Coruja

Quando falamos em meio ambiente é comum pensarmos em parques, florestas ou reservas, por exemplo. Esses são tipos de Unidades de Conservação, ou seja, espaços delimitados em que a proteção ambiental vem em primeiro lugar.
    
Cataratas do Iguaçu. Imagem: Manacá Hotel

Quem mora ou já frequentou algum espaço protegido, sabe que existem muitas regras, como: não deixar lixo, não levar plantas, mudas ou conchas. Simplesmente não é permitido! Não pode!

Na maioria dos parques brasileiros inclusive se mantém a estrada de terra original, para garantir o conforto dos animais nativos e também evitar o acesso desenfreado de pessoas. E a maioria pensa: se a estrada é de terra, melhor escolher outro lugar para ir.

Parque Nacional do Itatiaia. Imagem: ICMbio

Existe ainda, para além da cerca da Unidade de Conservação, uma faixa de território em que as regras diminuem, mas que ainda há uma série de restrições, porque não se imagina que os animais vivam bem, com uma barulheira do outro lado da cerca, ou com qualquer atividade que seja incompatível com a proteção do meio ambiente.

Para quem faz as leis, em geral o limite “Não é permitido” vem acompanhado de uma penalidade “Fazer o que não é permitido = x anos de prisão, ou multa ou obrigação de plantar, etc.”

Imagem: Prefeitura de Maceió

Para alguns, uma lei proibindo que se joguem sementes em uma área protegida não possui autoridade suficiente para impedir ninguém. Como os limites de velocidade nas rodovias que na maior parte das vezes apenas são respeitados quando se visualiza um radar.

Há quem acredite que somente se tivermos uma pena, e bem convincente, é que as pessoas obedecerão.

A prática informa que quanto mais velho o filho, menos ele se importa com o castigo. Ainda mais se desde pequeno não foram apresentados a ele os limites. É difícil que um adolescente que sempre fez do jeito que quis se subjugue a um castigo. Talvez porque ele não aprendeu sobre o respeito.

Imagem: Alexandre Beck

Assim, mais uma vez precisamos reconhecer a importância das várias atividades em prol do meio ambiente. A educação tem sua contribuição. A lei que protege e que impõe limites também tem a sua contribuição. Os órgãos que fiscalizam também têm sua contribuição. As áreas protegidas têm sua contribuição. As concessões, as permissões e autorizações têm sua função.

O castigo, na verdade, é a nossa última esperança. Ele só vem quando aquele que deveria ter sido educado, que deveria ter compreendido o papel do meio ambiente (a sua importância), que deveria reconhecer e respeitar a autoridade da lei, acaba agindo contra algo o que é considerado ético, moral e justo.

Imagem: Taringa

O castigo ou a pena, sozinhos, não garantem que não vá acontecer de novo. Colocar alguém atrás das grades, ainda que seja por 40 anos, não traz de volta o equilíbrio ambiental que havia antes da degradação. Eles têm sua contribuição para impor uma autoridade, de se fazer respeitar. Mas e quando o castigo terminar? O respeito será somente pela autoridade ou pelo meio ambiente também?


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terça-feira, 16 de maio de 2017

Ecologia da Liberdade


Estamos vivendo tempos antagônicos. Muitas vezes a sociedade serve mais para inibir do que para realizar nosso potencial humano. A marcha das mulheres em Janeiro de 2017 (e o movimento feminista dos anos 60) podem nos parecer distantes, mas ainda muito necessários frente aos desafios contemporâneos.

Imagem: Yahoo Tech
 No entanto, o movimento mudou (assim como o mundo) e o argumento feminista atual abrange mais do que a questão do gênero. Em épocas de mudanças climáticas é preciso entender como a justiça social deve advogar por uma ecojustiça.

O ecofeminismo, uma das vertentes tratadas pelo movimento feminista moderno, se baseia no conceito fundamental de uma interconexão entre a dominação da natureza pelo ser humano e a subjugação da mulher em relação aos homens, estabelecida e mantida através de formas patriarcais.

Imagem: Modefica

A teóloga Ivone Gebara eloquentemente expressou essa ideia ao afirmar que, hoje em dia, as tentativas de introduzir o ecofeminismo é revelar que o futuro dos oprimidos (as mulheres) está intimamente ligado ao destino da Terra. Embora existam diferentes tendências, o ecofeminismo afirma que todas as formas de opressão devem ser conectadas e que as estruturas de opressão devem ser tratadas na sua totalidade.

Quanto mais reflito sobre o assunto, observo que sistemas de opressão e dominação são os propulsores para a desarmonia e desrespeito, com o outro e com a Terra. A natureza e a mulher são vistos pelas sociedades patriarcais como uma "coisa útil", como objeto de consumo ou como meio de produção e exploração. De acordo com Murray Bookchin em The Ecology of Freedom, a dominação da natureza decorre da dominação das mulheres pelo poder patriarcal.

Imagem: Gregory Colbert 

Nesse sentido, quando as relações sociais se baseavam em laços de solidariedade e diversidade, essas qualidades se estendiam em sua relação com a natureza, embora, quando as relações de dominação se desenvolvem em sociedades hierárquicas, inevitavelmente elas se manifestam também na relação com o mundo natural. Em outras palavras, foi somente quando essa solidariedade começou a mostrar sinais de deterioração que as primeiras formas de dominação se manifestaram.

O ecofeminismo propõe que o movimento feminista e o movimento ambientalista tenham objetivos comuns (o desmantelamento dos sistemas de opressão e domínio) e trabalhem juntos na construção de alternativas teóricas e práticas.

O ecofeminismo não pretende dizer que a opressão de gênero é mais importante do que outras formas de opressão, mas o foco na opressão das mulheres revela que as características importantes dos sistemas de dominação estão interligadas. Como a ecofeminista Ynestra Kingaponta, devemos superar a discussão sobre qual é a contradição fundamental (desigualdade social ou crise ecológica) e entender os dois em seu relacionamento.
  
Construímos um sistema que nos persuade a gastar o dinheiro que não temos, em coisas que não precisamos, para criar impressões que não duram em pessoas que não importam. Imagem: Pinterest

É importante acrescentar que o ecofeminismo (ou feminismo) não é só importante para as mulheres, mas também para os homens. Precisamos ultrapassar a separação/discussão de gêneros e investigar o princípio feminino e masculino presente em todos nós. Este é, sem dúvida, um grande desafio para o século XXI.

Fontes:
Bookchin, M. (1982) The ecology of freedom: The emergence and dissolution of hierarchy. Palo Alto, CA: Cheshire Books.
Gebara, I. e Ware, A.P. (2002) Out of the depths: Women’s experience of evil and salvation. Minneapolis: Augsburg Fortress, Publishers.
Kaplan, J., Hobgood-Oster, L., Ivakhiv, A. e York, M. (2008) Encyclopaedia of religion and nature. Editado por Bron Taylor. New York: Continuum International Publishing Group.
King, Y. (1981a) «Feminism and the revolt of Nature», Heresies Collection, 4(13).
Plumwood, V. (1993) Feminism and the mastery of nature. London: Taylor & Francis.


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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Lucro com benefícios socioambientais: conheça o Sistema B, o movimento global que redefiniu os negócios sustentáveis


Em nosso primeiro post da Semana Temática de Tecnologia e Inovação, vimos que existem empresas que estão preocupadas com o impacto socioambiental e que por isso buscam soluções para melhorar essa relação.

Empresas que utilizam o poder de mercado para encontrar não só para o lucro financeiro, mas também soluções para questões sociais e ambientais.


Esse comportamento tem se reproduzido em escala global, compondo um movimento que está redefinindo o conceito de negócios sustentáveis. E buscando unificar e fortalecer essas empresas, nasceu em 2006, nos Estados Unidos, o conceito de B Corps, as Empresas B, onde o “B” está relacionado aos benefícios sociais que as empresas podem oferecer.   No Brasil, o Sistema B chegou no ano de 2013.

Mas o que é o Sistema B? Sistema B é mais que uma ONG ou empresa. É um movimento global que além de identificar e certificar empresas que utilizem seu poder de mercado para solucionar problemas socioambientais, busca criar e fortalecer alianças estratégicas a partir de uma comunidade formada por empresas B (compradores, políticos, líderes de opinião, acadêmicos e investidores).


O grande objetivo do Sistema B é mudar a percepção de negócios pelas empresas e, consequentemente, pela sociedade. Essa transformação vai muito além da imagem da empresa, ela diz respeito a identidade, a absorção do conceito de ser uma empresa melhor para o mundo em oposição ao modelo de negócios voltados apenas para o benefício da própria empresa e de seus acionistas.


Mas o que é preciso para ser uma empresa do Sistema B? Uma empresa que faz parte do Sistema B tem altos padrões de gestão e transparência, além de gerar benefícios sociais e ambientais. Também é preciso realizar a alteração do estatuto social da empresa, inserir duas cláusulas que dizem que ela se compromete a gerar benefícios para a comunidade e não apenas para seus acionistas. A empresa se compromete em ser uma empresa para o mundo, o que significa uma mudança de paradigma de mercado.


As empresas também passam por uma avaliação rigorosa em que é preciso alcançar uma pontuação mínima entre as 160 perguntas disponibilizadas. A manutenção do selo ocorre a cada dois anos e a empresa precisa provar que suas práticas e políticas de sustentabilidade estão avançando.

Já são mais de 2000 empresas certificadas com o selo de Empresa B ao redor no mundo. No Brasil, apesar de termos poucas empresas com a certificação, ocorreu um fato que representou uma grande esperança no mundo corporativo. A maioria das empresas certificadas são empresas de pequeno e médio porte, fato que mudou quando a Natura conquistou o selo de Empresa B em 2014, se tornando a primeira empresa de grande a fazer parte do Sistema B.


Confira abaixo a lista com as empresas brasileiras que fazem parte do Sistema B.

Para saber mais sobre o processo de certificação do Sistema B, basta acessar o link a seguir http://sistemab.org/como-me-sumo

É importante estar atento a essas mudanças para que as verdadeiras transformações ocorram e as empresas exerçam um papel de agente de transformação socioambiental.



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quinta-feira, 11 de maio de 2017

Empreendedor faz próteses acessíveis com impressora 3D


Se existe hoje algo muito próximo da ideia utópica de um século XXI completamente imerso em tecnologias do futuro, certamente é a impressora 3D. O aparelho, que fabrica itens a partir de camadas sobrepostas de resina de plástico, se popularizou domesticamente nos últimos anos e tem seu uso estudado para a área de saúde, com a criação de próteses e guias cirúrgicas.

Assim é o caso de Thiago Jucá, 26 anos, engenheiro mecatrônico e empreendedor que usa a impressão 3D para criar próteses infantis que ajudam na autoestima e autonomia das crianças.


Além de receber encomendas, Thiago sempre acaba ajudando famílias que não têm disponibilidade financeira para comprá-las. É o caso de Vanclever Machado Vila Nova dos Santos, o Pepi, de 13 anos e morador de Sete Lagoas (MG). Ele nasceu sem o antebraço direito devido a uma má formação congênita e foi presenteado com uma prótese personalizada do personagem Homem de Ferro.

Foi numa feira de tecnologia que esta história começou. Thiago estava lá representando sua empresa de próteses 3D, com um novo modelo quando foi abordado por Rafael, primo do menino e também com deficiência (sofreu um acidente aos 11 anos de idade e perdeu o braço esquerdo). Thiago se ofereceu para desenvolver uma prótese para Rafael, mas ele sugeriu fazer para o primo, Pepi.


Por morarem em cidades diferentes, todo o processo de produção foi feito à distância. Para as medidas, Thiago decidiu pedir ajuda para os pais do menino. Eles enviaram as medidas e fotos do antebraço de Pepi. Com as medidas corretas foi desenvolver a prótese, que em 15 dias estava pronta.

A prótese é totalmente mecânica e tem em seu conceito tendões artificiais. Ela possui elásticos que permitem a posição de repouso e os tendões são feitos de nylon de multifilamento (é mais resistente). Para fechar a mão da prótese basta um movimento de alavanca para puxar os tendões.


Thiago, então, se dirigiu à Sete Lagoas para entregar pessoalmente a prótese. Pepi entusiasmado com o presente, prontamente colocou e logo conseguiu usar. "Sempre quis a sensação de ter o braço. Quando ganhei, me emocionei. Agora é muito mais fácil pegar um copo de água e outras coisas", afirmou Pepi.
  

Já a mãe do menino, a costureira Dorca Rodrigues Machado disse: “A gente nunca tinha conseguido a prótese por falta de recursos financeiros. Depois que ele ganhou a prótese percebemos o quanto ele tinha dificuldade em algumas coisas e tudo ficou mais simples."


Ações como essa são realizadas com o dinheiro arrecadado através de financiamentos coletivos. Quem quiser fazer sua doação para deixar mais crianças e adolescentes felizes, basta acessar o site da empresa. Já os que precisam e podem pagar, podem encomendar uma prótese – para dedos, braço, antebraço ou mão – também pela internet.


Por enquanto, a Protesis funciona em uma pequena sala de incubadora, mas a ideia é continuar produzindo próteses impressas em 3D, a preço mais baixo que o do mercado (R$ 300, contra R$ 1.500 dos produtos atuais de menor custo) e criar uma rede colaborativa para levar o produto a quem precisa.

Com informações de: UOL AdministradoresTecmundo.


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