segunda-feira, 9 de julho de 2012

Consumo de Prestígio


É inegável que o consumo seja uma manifestação cultural, uma forma de preenchimento emocional, de distração e de geração de lucro para uns e endividamento para outros.

A partir de determinado momento, talvez com o enfraquecimento dos métodos de troca e o fortalecimento da moeda (dinheiro), a mente humana passou por uma transformação profunda e que às vezes não percebemos.

Hoje, há pessoas que acreditam que tudo tem seu preço. E, estas mesmas pessoas afirmam que as coisas, a natureza e os animais estão à disposição do homem. A própria Constituição Federal, em seu artigo 225, dispõe que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida...”. Enfim, o meio ambiente não só é um bem, uma propriedade, como também é para ser usado. No mundo acadêmico denominamos isso de visão antropocêntrica, ou seja, o homem sendo o centro do universo.

É interessante perceber que a cada momento as formas de consumo vão se aperfeiçoando, o que é exemplificado pela China, pelo Vietnã e pelas réplicas de objetos de marcas que foram responsáveis por preencher o desejo de consumo da classe C. O comercio popular se tornou um gigante, na maior parte das vezes informal, mas que possui o mesmo alvo do consumo: preencher a necessidade de atenção e aceitação das pessoas. Ou, como diria o Prof. Rizzatto Nunes, em seu recente artigo no site Migalhas, o consumo vende esperanças, mas as pessoas compram frustrações, pois o preenchimento nunca vem. E o ápice dessa cultura de consumo é o que chamaremos de consumo de prestígio, que foi constatado nas situações descritas a seguir.

A primeira ocorreu no curso de mestrado do qual participo, na área jurídica, onde os alunos são juízes, promotores, delegados e advogados. O objetivo do mestrado acadêmico é formar profissionais que se tornarão professores em faculdades e universidades, por isso é necessário que o aluno assista às disciplinas e elabore uma dissertação que será analisada por uma banca com três professores já doutorados. Eis que, após uma aula de filosofia (que tem o objetivo de ampliar a forma de pensar e facilitar o desenvolvimento do potencial questionador das verdades), um colega fez uma declaração inesperada. Para surpresa total, ele declarou que não gostaria de passar um semestre inteiro discutindo o sexo dos anjos e que se fosse o caso, ele pagaria à vista para ter logo o diploma de que precisava.


A outra situação aconteceu na rede social Facebook, quando compartilhei a imagem-texto abaixo. Alguns dias depois, uma reportagem na TV mostrava a constatação de que apesar do mercado de livros estar aquecido, as pesquisas demonstravam que as pessoas estavam lendo menos. Então, me questionei qual seria o motivo das pessoas comprarem livros se não os liam.


A conclusão alcançada, em ambos os casos, foi a de consumo de prestígio, onde as pessoas compram objetos, posições, diplomas, cargos, etc., para que possam usufruir de um determinado prestígio. No caso do diploma, o que se espera é ingressar no meio acadêmico, e, em tese, trabalhar menos e ganhar mais, já no caso dos livros, o objetivo é parecer letrado, culto.

Na primeira situação poderia até funcionar, mas a pessoa não estaria cumprindo com sua responsabilidade, com sua função educacional, na medida em que estaria implicitamente transmitindo valores deturpados. E, com relação ao caso dos livros, quando notamos a estante da casa ou escritório de alguém repleta de livros, e iniciamos uma conversa com ela sobre eles, logo é possível identificar se aquela pessoa realmente os lê. O vocabulário utilizado e a forma de pensar são só algumas das formas de comprovar a leitura, já que é quase impossível que uma pessoa que realmente leia muito não tenha facilidade para falar sobre vários assuntos e possua uma gama maior de palavras em seu vocabulário.

Assim, é fácil perceber a fragilidade do prestígio, pois se pressupõe que o interlocutor, o sujeito que lhe dará prestígio em função de sua aquisição, seja alguém totalmente inerte e inconsciente. Acredito inclusive que o valor do prestígio está justamente em ser reconhecido por pessoas comprovadamente cultas e letradas. E estes são os primeiros a rejeitar atitudes como essa de se comprar uma aparência frágil e falsa.

Confesso a vocês que, quando compartilhei essa imagem-texto, meu sentimento foi de incentivar a leitura e ressaltar o amor pelos livros. Adoro ler e ainda compro mais livros do que tenho condições ler. Mas, pensando bem, é claro que após ter refinado meus hábitos de consumo, em função de uma consciência que vem sendo ampliada a cada dia, o consumo de livros pareceu algo perdoável. Talvez seja um resquício dessa cultura de consumo, talvez seja uma forma de compensação, talvez seja uma esperança que nunca preencherei, talvez isso traga segurança.

Acredito que são nestes momentos, em que nos questionamos, nos propondo a repensar e alterar nossas posturas, que começamos a criar a sustentabilidade que buscamos.

Como você percebe a sua postura de consumo? Você consome em busca de prestígio ou reconhecimento?




4 comentários:

  1. Parabéns pelo artigo Janaína, que é bem articulado e retrata apropriadamente o capitalismo e a febre de consumo dos povos. Respondendo sua retórica pergunta, há os que consomem pura e simplesmente pelo prazer pessoal, já não mais interessados em saber se haverá prestigio ou reconhecimento, que considero um consumo mais amadurecido e onde me encaixo. Por exemplo: sempre consumi livros pelo prazer que a leitura me proporciona, mas, praticando o equilibrio que se faz necessário na atualidade por "n" motivos, tal consumo me dá o privilégio de retroceder no tempo e praticar o antigo "escambo" e através disso ainda conhecer pessoas interessantes como você. Parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Gratidão pela apreciação San!

      Excluir
    2. Gratidão pela apreciação San!

      Excluir
  2. É uma pena que não tem um botão curtir para o artigo.

    ResponderExcluir