sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Comunicação com a Natureza


Um relacionamento só se sustenta se houver alguma forma de comunicação. Pode ser através das palavras, de gestos, dos olhos ou até das intenções. Sem comunicação, não há como existir relacionamento.

Vamos a um pequeno exercício de reflexão? Então, qualifique a sua relação com a matéria, com a natureza. Você consegue entender o que acontece no meio ambiente? Entende as intenções da natureza? E que tipo de sentimentos e intenções, que mensagem você transmite ao pisar na terra todos os dias?

Tive dificuldades em responder a essas perguntas, da mesma forma que você também deva ter sentindo. A primeira resposta que me veio em mente foi: sem comunicação, sem conexão com o meio ambiente. Mesmo tendo realizado tantas coisas em prol do meio ambiente; mesmo sentindo uma imensa falta de árvores na cidade em que resido (Santos – SP); mesmo tendo dedicado os últimos 14 anos estudando Direito Ambiental, tentando encontrar soluções para vários problemas ambientais. Mas, ainda assim, sem comunicação.


Uma experiência interessante que sempre faço é tirar os sapatos e colocar os pés no chão, na terra, na grama, na água, na areia e tentar sentir o que acontece. Nos Jardins Botânicos pelo Brasil, hoje existem os “jardins de sensações”, onde você pode tocar plantas lisas, rugosas, com “pelos”; cheirar plantas com aromas agradáveis, outras nem tanto; caminhar por túneis verdes, sobre seixos (pedrinhas lisas de rios de água doce). Enfim, a idéia é sentir a natureza.


Os sentimentos mais grosseiros são fáceis de perceber: espinhos, texturas, cheiros. Mas e a intenção da natureza qual é? Qual é a mensagem que nos transmite uma mata fechada? Um mangue? O cerrado? O deserto? O que eles comunicam? E as desarmonias como tsunamis, tornados, chuvas, secas, ventos? O que comunicam?

No momento da resposta “sem comunicação”, a primeira imagem que veio a minha mente foi a das formigas, pois tenho uma relação difícil com elas. Elas invadem todos os locais onde moro, mesmo tento mudado inúmeras vezes, elas sempre aparecem. Quando tiro o sapato para colocar os pés no chão, elas sempre estão lá. E a picada delas gera uma alergia severa em minha pele.

O conselho que sempre recebo da minha mãe: “Converse com elas. Explique que aquele lugar é a sua casa e que elas precisam arranjar outro local para morar. Fale com elas com amor e deixe-as ir”. Talvez elas não entendam minha língua ou não esteja fazendo certo, porque ainda não funcionou.

No dia desta reflexão, eu estava sentada na grama e com os pés descalços. Logo me dei conta que estava com o pé em uma rota de formigas. Resolvi mudar de lugar, indo para o outro lado do jardim, onde havia aquela grama mais fininha e mais alta. Sentei e me propus a observar. Em poucos segundos havia formigas e outros insetos transitando sobre os meus pés. Continuei imóvel e observando eles cruzarem meus pés e irem embora. Até que uma formiguinha perdeu a rota e resolveu descer pelo espaço entre o meu dedinho e o penúltimo dedo, foi então que mexi o pé e levei uma picada exatamente nesse lugarzinho.

Depois dessa experiência, que obteve parcial sucesso, comecei a me questionar se sei falar a língua da natureza. Sim, porque a língua dela eu já sabia que não estava entendendo. Analisando o meu dia a dia, percebi que tenho corrido muito para dar conta de tudo o que gostaria de fazer. Normalmente, eu piso no chão sem qualquer consciência de qual mensagem estou enviando. Mas o que este pisar displicente quer dizer? Algumas posturas ecologicamente harmoniosas que adotei nos últimos anos, certamente suavizaram a minha mensagem, mas ainda assim, o que eu estou dizendo para os elementos da natureza diariamente?

Se você observar os sons da natureza e os nossos sons, perceberá que ela prima pelo silêncio ou por sons suaves, enquanto que o ser humano produz barulho suficiente para prejudicar o sono, a audição e a clareza de raciocínio. Podemos dizer que em comparação com o ser humano a natureza é silenciosa e tranquilizadora.

De forma análoga, os resíduos da natureza são, por essência, biodegradáveis. Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma dentro de um perfeito equilíbrio, enquanto que os resíduos produzidos pelos seres humanos geram cada vez mais desequilíbrio e problemas de difícil solução.

Nesse sentido, nossas mensagens definitivamente não têm sido as melhores. Talvez, por isso, o nosso relacionamento e mesmo a nossa interação estejam truncados. Contudo, qual é a forma de comunicar a nossa vontade de cooperar com a natureza? Como iremos fazer isso? Quais outras mensagens queremos transmitir? Nossas ações, sons e intenções são capazes de dizer isso? Como?

Ouvi em uma palestra o seguinte conceito de comunicação: “Comunicar é tocar o que temos em comum.” Infelizmente, não consegui anotar o nome do autor da frase.

Talvez as respostas comecem por descobrir o que temos em comum...




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