segunda-feira, 10 de março de 2014

Facilitando a Vida?

As facilidades estão cada vez mais numerosas. Facilitar tornou-se a palavra de ordem. Ainda mais quando as oportunidades se multiplicam e o tempo se torna curto. Qualquer objeto, máquina ou procedimento que economize tempo e nos possibilite aproveitar mais oportunidades é muito bem-vindo.

Autossustentável: O tempo é curto!

Nos últimos meses tenho buscado leite integral fresco na Baixada Santista. Daqueles que não passam por processos de esterilização, pasteurização e homogeneização. Recém tirado da vaca, sabe? Mas o que eu ouço em todos os locais é: “Isso não existe mais”. Acompanhado de um sorriso meio irônico que quase pergunta: “Você veio do interior, não é?”

Nas férias de julho estive no sul de Minas. Visitei uma fazenda típica, lá havia muitas vaquinhas e um senhor tirando leite para demonstrar aos turistas como se fazia. Ao terminar, ele pegou um pouco de leite em uma canequinha de alumínio esmaltado e ofereceu aos que ali assistiam. Uma menina de uns oito anos se apressou dizendo: “Eu adoro leite”. E o pai dela rapidamente interrompeu: “Não filha, esse leite é diferente, não foi esterilizado, não foi fervido. Não tome.”

Entendo que realmente não é o que costumamos beber e ainda que se trate de uma bebida forte pelo seu teor de gordura. Mas será que tornamos nosso organismo tão estéril e sensível a ponto de não podermos consumir algo natural?

E então, para que você vai complicar querendo alimentos “caseiros” ou de origem mais “natural”? Você não poderia facilitar comprando leite de saquinho? E que problema tem comprar leite homogeneizado e pasteurizado?

A razão de ser da produção industrial foi o aumento do populacional e a necessidade de produção em maior escala. Todo um emaranhado de técnicas de resfriamento, conservação, logística e distribuição foram criados para suprir as necessidades de todos. Nossas atividades ficaram complexas e para isso precisamos criar meios de facilitá-las.

Não apenas no setor da alimentação, mas em todas as tarefas que demandavam um tempo considerável para sua execução foram surgindo novas facilidades: automóveis; computadores; barbeadores elétricos que substituem lâminas de barbear; raladores; espremedores; máquinas que fabricam pães sem que seja necessário as pessoas se cuidarem em que os mesmo serão assados; impressoras, escovas de dente, vassouras e chaleiras elétricas... É uma infinidade de produtos para facilitar a vida. Outra área que teve um grande avanço na facilitação foi a área médica, por exemplo, com a eliminação do excesso de gordura corporal via cirurgia e o parto via cirurgia cesariana.

O pensamento que inquieta a minha mente não é de forma alguma contrário a esses avanços. Até porque graças ao avanço tecnológico promovido pela humanidade temos muitos novos produtos e procedimentos que nos auxiliam. Hoje, em verdade, não seria viável a readaptação aos antigos meios de vida e para alguns seria realmente impossível.

O que incomoda é o fato de que a humanidade cria toda esta parafernália facilitadora sem visão de longo prazo. Explico: em relação à alimentação, o movimento para que retornemos a consumir alimentos frescos, que não possuam elementos adicionados e agrotóxicos tem várias frentes: orgânicos, permacultura, slowfood, etc. A essência de todas é a mesma: mais saúde, menos enlatados, empacotados, caixinhas e adicionados de qualquer natureza. Essas frentes incentivam também que se volte a dar atenção aos métodos tradicionais de comer e conviver, desacelerando.

Autossustentável: SlowFood x FastFood

Na medicina, questionam-se os procedimentos estéticos (devido aos seus riscos) e mesmo as cesarianas (que se tornaram uma forma de facilitar a vida e a agenda das gestantes, dos médicos e dos hospitais).

Quanto aos produtos tecnológicos, questionam-se os resíduos, o fato de serem cada vez menos duráveis (para ajudar a baratear os preços e favorecer o consumo de muitos), a forma como se tornaram essenciais na vida humana e a sua real necessidade.

Autossustentável: Lixo Eletrônico

Como foi exposto anteriormente, eles facilitaram, mas uma parte importante do planejamento foi esquecida: pensar sobre quais os efeitos de tudo isso no planeta, na forma de conduzir nossa vida, nas reações que a natureza teria em função desta atuação. Se o planeta fosse uma empresa definitivamente estaríamos com problemas: não foram avaliados os riscos, os retornos, como ficaria a imagem da empresa perante o público, nem como resolveríamos os efeitos colaterais e os defeitos de fabricação.

Hoje temos muitos resíduos, o super endividamento dos consumidores, milhares de toneladas de produtos inúteis e de baixíssima qualidade, os efeitos das cesarianas na vida psíquica do indivíduo quando adulto, os efeitos dos adicionados na produção e conservação de alimentos, os efeitos da falta de convívio familiar na moral e ética da sociedade.

Enfim, tudo isso que criamos e que sem dúvida facilitou a vida, terá que reflexos no futuro? Em alguns casos já estamos certos de que a escolha gerou mais efeitos maléficos do que desejávamos. Outras se mostraram realmente benéficos.

Para aqueles que querem escolher diferente, como o meu tão sonhado leite fresco, ainda há esta opção? Descobri que teria que mudar de cidade para ficar mais perto de um local onde existam vacas. Facilitar a vida de pessoas que estão buscando escolhas não padronizadas e empacotadas não será fácil. Será esta tarefa (de facilitar a vida dos fora do padrão) encarada como uma reflexão necessária ou uma nova fatia do mercado a ser explorada?

Autossustentável: Lixo Eletrônico

Depende da forma como você encara suas necessidades e até que ponto você realmente precisa de facilitações. Fácil não é melhor ou pior. Talvez o juízo de valor a ser feito seja: “isto é adequado ou mesmo necessário?”. “Entendemos as conseqüências de incentivar esse comportamento?”. “Onde queremos chegar?”. “O que queremos construir?”.


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