sábado, 5 de abril de 2014

Xenofilia Exacerbada e suas Consequências

A Xenofilia (do grego xenos = estrangeiro + philos = amor), ou seja, gostar do que é estrangeiro, do que é de fora de sua localidade. Essa característica em si não é prejudicial, no entanto, quando ela é exacerbada ao ponto de preterir o que é local em função do que é de fora, traz consigo uma bagagem de consequências que podem ser muito prejudiciais. Chegando ao extremo de sempre considerar que “a grama do vizinho é mais verde”.

Autossustentável: Frutas do Brasil

Como o assunto é muito amplo e podem ter muitos vieses interpretativos, vou me ater a alguns pontos mais relevantes no contexto socioambiental. Mais especificamente, ao consumo de gêneros alimentícios de origem vegetal. Desse modo, a xenofilia exagerada pode:
  1. Ser um entrave ao desenvolvimento local;
  2. Reduzir pesquisas com plantas nativas;
  3. Levar produtos locais à vulnerabilidade de extinção.
E, para não parecer determinista ou catastrófico, explicarei, a seguir, cada um dos pontos.

Muitas comunidades tradicionais, campesinas, quilombolas e de agricultores familiares baseiam sua renda no extrativismo e venda de produtos nativos de onde residem. No entanto, a falta de conhecimento sobre esses produtos restringe a comercialização, muitas vezes, pela falta de argumentos que agreguem valor ao produto e, consequentemente, diminuem o potencial para desenvolvimento local.

Autossustentável: Umbu
Foto: Umbu

Com essa não valorização das espécies nativas, uma cadeia de acontecimentos é formada. Produtos que não apresentam mercado, não são objetos de pesquisas que proporcionariam maior conhecimento técnico sobre um manejo florestal mais sustentável, desenvolvimento e expansão da cultura. E, consequentemente, ficam vulneráveis a ter suas populações nativas suprimidas e substituídas por culturas que proporcionem maior ganho imediato.

Autossustentável: Pitomba
Foto: Pitomba

Autossustentável: Mangaba
Foto: Mangaba

Grande é a biodiversidade de espécies frutíferas e espécies com outros usos no Brasil, mas, poucas são as conhecidas e que tem relevante consumo. Podemos citar algumas e refletir quais estão em nossas mesas com frequência: Abacaxi, Açaí, Babaçu, Bacupari, Bacuri, Buriti, Cabacinha-do-campo, Cacau, Cagaita, Caju, Cambuci, Caraguatá, Castanha de Baru, Castanha do Pará, Cruá, Goiaba, Guaraná, Guavira, Ingá, Jabuticaba, Jaracatiá, Jatobá, Juá, Licuri, Fruto do Mandacaru, Mangaba, Maracujá, Palmito Juçara, Pequi, Pinhão, Pitomba, Sapucaia e Umbu são brasileiras, não necessariamente endêmicas (distribuição restrita) do Brasil.

Autossustentável: Guaraná
Foto: Guaraná

Autossustentável: Babaçu
Foto: Babaçu

Autossustentável: Bacuri
Foto: Bacuri

Muitas dessas espécies, pouco conhecidas e ou totalmente desconhecidas, podem ficar mais vulneráveis à extinção antes mesmo de sabermos de todo seu potencial, seja ele alimentício, medicinal ou qualquer outra utilidade.


Não me atrevo a fazer apologia ao não consumo de produtos cujas origens são estrangeiras, até porque a maioria faz parte de nossa alimentação e já é amplamente produzida no Brasil. Além do que, a produção dos mesmos gera emprego e renda, sendo objeto de muitas pesquisas desenvolvidas para essas culturas inclusive com variedades desenvolvidas aqui no Brasil. Essas espécies são tão inseridas na nossa cultura alimentar que muitas nos surpreendem em não serem brasileiras, por exemplo: Abacate, Acerola, Banana, Cajá, Carambola, Coco-da-baía, Figo, Fruta-pão, Graviola, Jaca, Jambo, Laranja, Limão, Maçã, Manga, Pêra, Tamarindo, Tangerina, Uva etc.

Autossustentável: Frutas do Brasil

Com tudo isso, meu intuito é sensibilizar para uma mudança de hábito. Que possamos nos aventurar e buscar em nossas respectivas regiões as delícias escondidas que certamente gerarão prazer na sua degustação. Porém, baseado, logicamente, nos saberes locais para evitar intoxicações.

Aqui na Bahia temos Jatobá (in natura ou como farinha), Juá (in natura e utilizado na indústria farmacêutica), Licuri (coquinho in natura, cozido ou em cocadas, extração de óleo), Fruto do Mandacaru (in natura ou doces), Mangaba (in natura, sucos e principalmente sorvetes), Maracujá (in natura, sucos e sobremesas) e Umbu (in natura, sucos, geléias e sorvetes). Já experimentei todos e são realmente muito bons.

E você já se deliciou com nossas frutas nativas? Quais?


Clique aqui para ler outros artigos de João Paulo Loyola de Oliveira

13 comentários:

  1. Feliz em saber pessoas se preocupam em alertar a respeito de matéria tão importante quanto a preservação da flora e da frutas silvestres brasileiras. ainda é pessível resgatar muitas espécies da extinção...

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  2. Olá! Trabalho com Restauração Florestal e utilizo muitas dessas espécies nativas para restaurar áreas de preservação permanente. São exelentes para a fauna e fundamentais para melhorar a renda dos pequenos produtores rurais familiares. Muito bom o texto! Parabéns pela reportagem!

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    1. Rodolfo, podemos conversar melhor sobre o seu trabalho? Se sim, responda aqui, ou mande email para raquel.a.rodrigues@gmail.com
      Sou engenheira ambiental, atualmente num projeto de estrada, e estou enfrentando algumas dificuldades na caatinga, pensei em conseguir mais informações com quem entende do assunto.

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  3. Eu já comi muito umbú e mangaba, em Salvador, quando lá estive de férias. Deliciosas!

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  4. Só não conheço a última. ; D

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  5. Tem uma da região norte de Minas Gerais que não foi citada, mas merece ser conhecida: Pequi. Deliciosa!! E tem também o araticum.

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  6. Muito bom a postagem,mas conheço todas.

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  7. Existe uma fruta, entre outras, que é encontrada na Restinga que é maravilhosa e é conhecida como cambuca. É uma fruta azedinha e doce ao mesmo tempo. Infelizmente, fazem anos que a comi. A restinga da praia de Guriri, em São Mateus-ES, está sendo destruída a plenos vapores pela expansão imobiliária desordenada e gananciosa.

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  8. Aqui na região sul não tem a maioria dessas frutas !! Gostaria de poder experimentalas

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