sexta-feira, 16 de maio de 2014

A Moda em [Re]Evolução: Slow Fashion

Autossustentável: Slow Fashion

Os desafios dos designers de moda são gradativamente maiores, pois além de criarem roupas com inúmeras qualidades (design, conforto, durabilidade, entre outras), a busca para alcançar novos patamares em um mercado bastante competitivo está em cada vez mais complicada devido ao número excessivo de marcas. Além destes desafios, os designers também precisam, por um lado, satisfazer as necessidades da sua marca em questão, através de um número satisfatório de vendas dos produtos criados; e por outro, pensar em desenvolver produtos que agridam o mínimo possível o meio ambiente. Para tal, eles devem conhecer as etapas do ciclo de vida do produto e o que abrange o design de sistemas para a sustentabilidade, a fim de criar produtos mais “amigos do meio ambiente”. Caso a empresa/marca não tenha uma filosofia de trabalho mais sustentável, é de responsabilidade do designer, aos poucos, ir inserindo e alertando a empresa para a sua responsabilidade, tanto em termos de sustentabilidade ambiental, quanto de responsabilidade socioeconômica e ética, com vistas a preservar o planeta para as gerações futuras.

A palavra moda, para muitos, remete a algo efêmero, passageiro e ligado às tendências. Segundo Black (2008), a moda é repleta de contradições, pois é efêmera e cíclica; refere-se ao passado, mas está sempre à procura do novo; e reflete a expressão de uma identidade pessoal, ao mesmo tempo em que busca pertencer a um grupo.

Aos poucos, o campo do design de moda vem mudando o seu foco do sistema fast fashion para o slow fashion. Até pouco tempo, só se falava de fast fashion como um diferencial competitivo no mercado, onde quem produzia mais rápido e com preço melhor alcançava o seu objetivo. O sistema fast fashion vem de um modelo de grandes lojas, como a Zara e a H&M, que aquecem o mercado consumidor com um sistema de produção muito rápido e ininterrupto, onde sempre há novidades que instigam nas pessoas o sentimento de adquiri-los, fazendo deste modelo de negócio algo extremamente rentável. Um dos maiores atrativos dessa estratégia de mercado é, também, a parceria das grandes magazines com estilistas de renome. Como o público alvo dessas marcas é basicamente a classe média (que no Brasil está em constante crescimento), essas coleções têm um apelo estrondoso, já que ter uma peça de grife é inviável para a grande parte da população, e nesses parâmetros a peça com a assinatura de grandes designers é adquirida a preços acessíveis. No Brasil, grandes redes adotaram esse mesmo sistema de atuação, popularizando o consumo de forma impulsiva e frequente, sem nenhum tipo de preocupação além do desejo de possuir sempre a última novidade da estação.

 “Fast fashion significa estar sempre com as prateleiras abastecidas de novidades para os consumidores, requerendo coleções compactas e modelos novos o tempo todo, onde o planejamento de produto não é para meses, mas para semanas ou dias.” (RIBEIRO, 2007).

Na contramão da nova tendência do fast fashion, o slow fashion surge para dar maior consciência ecológica para seu consumidor. Tem origem no slow design, movimento criado por Fuad-Luke (2010), que está democratizando os processos para criar peças de uma forma mais lenta, com preocupação no desenvolvimento dos processos. Sua área de atuação é voltada para o bem de pessoas e do ambiente, pensando primeiramente em benefícios locais, ampliando a ação para o âmbito global, fazendo com que a parte rentável fique em segundo plano. Com essas ações, os profissionais que trabalham com os princípios do movimento slow querem propor uma mudança no comportamento de consumidores e modelos econômicos.

“A transição para a sustentabilidade necessita de mudanças radicais na maneira como produzimos, consumimos e, de uma forma geral, no modo como vivemos.” (VEZZOLI, 2010)

O uso de materiais sustentáveis sem descarte de resíduos tóxicos no ambiente, e com uma preocupação com o lado social da produção, atrai o público com consciência ecológica, assim como peças atemporais e exclusivas que possuem vida útil prolongada. O sistema slow fashion atrai um público novo no mercado, uma gama de clientes exigentes tanto em relação ao design da peça, quanto à sua forma de produção. Um exemplo de profissional que está trabalhando nesse nicho é a designer Ana Livini (2012), uma das pioneiras do conceito slow fashion que, através do Manifesto Moda Lenta Slow Fashion, busca disseminar a cultura de um ritmo mais lento no mercado da moda. Sua coleção de inverno 2012, intitulada Territórios, tem peças produzidas com lã merino e tingidas de forma artesanal, constituindo um processo sustentável.

Autossustentável: Coleção inverno 2012 Ana LivniAutossustentável: Coleção inverno 2012 Ana Livni
Coleção inverno 2012 Ana Livni – peças produzidas com lã merino, tingidas artesanalmente.

A expressão “moda lenta” não deve ser vista como uma forma ineficaz de negócio, mas sim como uma maneira de melhorar a produtividade, que deve ser medida não somente pelas tabelas de lucros, como também pelos ganhos sociais e ecológicos que geram esses novos conceitos de produção de moda. A busca por produtos com maior durabilidade transpassa tanto termos estéticos, quanto de qualidade de produção. Outro aspecto importante a ser ressaltado é o aspecto emocional, pois, uma vez que o consumidor gosta da roupa, seja pelo conforto, modelagem, ou outra característica; cria-se uma relação de maior cuidado com a peça, o que retarda o fim do seu ciclo de vida.

Além das preocupações no desenvolvimento de um determinado produto, deve-se pensar como este poderá ser usado pelo consumidor e de que forma será descartado. Um exemplo de marca que se preocupa com a economia de energia ao longo do uso das suas roupas é a TriStar Jeans, que desenvolve peças de jeans que não necessitam de lavagem. De acordo com a empresária Jandira Barone, em entrevista para o site Gbl Jeans, após o uso, a peça deve ser acondicionada no freezer, dentro de uma sacola vedada, em um período de vinte e quatro horas. A higienização se dá por causa de enzimas presentes na peça, que agem através de baixas temperaturas. Desta forma, se reduz a quantidade de água utilizada nas lavagens, que ainda são necessárias em caso de manchas (estas não saem no processo de refrigeração). No entanto, a marca sugere a customização dos jeans, em caso de manchas, dando à roupa caráter de produto exclusivo. As peças ainda são versáteis, uma vez que é possível usá-las do lado direito e avesso.

Autossustentável: Peça versátil da Gbl Jeans
Peça versátil que não necessita de lavagem

Assim como a TriStar, existem outras marcas engajadas na produção sustentável, pensando em todas as etapas do ciclo de vida do produto. Desta forma, percebe-se que a indústria da moda tem aumentado sua atuação direcionada ao desenvolvimento de produtos sustentáveis. É importante discutir esse novo panorama, a fim de entender como a moda pode se alinhar às novas exigências relacionadas ao design sustentável. Ainda que seja recente a participação desta indústria no cenário sustentável, nota-se uma evolução na oferta de alternativas ecológicas, das mais variadas, o que pode ser justificado pela necessidade das empresas de corresponderem às necessidades do mercado. A sustentabilidade está em destaque, e o consumidor está se tornando mais consciente, fazendo com que as empresas busquem investir em novas tecnologias sustentáveis, a fim de se tornarem competitivas.

*O artigo, na íntegra, foi publicado conjuntamente por Luciana Della Mea, Anne Anicet e Mariana Campos no CIMODE – Congresso Internacional de Moda e Design, na Universidade do Minho, Portugal.

Referências:
ANA LIVNI. In: http://www.analivni.com/MODAlenta-SLOWfashion/ANA_LIVNI.html . Acesso em: 12/04/2012.
BLACK, S. Eco-Chic: The Fashion Paradox. London: Black Dog Publishing, 2008.

VEZZOLI, Carlo. Design de sistemas para a sustentabilidade: teoria, métodos e ferramentas para o design sustentável de "sistemas de satisfação". Salvador: EDUFBA, 2010.


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