quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Energia Nuclear: A Energia que Soluciona e o Rejeito Sem Solução – Parte II

A energia que move Angra

Foto: Central Nuclear de Almirante Álvaro Alberto (CNAAA)

Visitando a área externa das obras de Angra 3, percebemos que já está bastante evoluída, sendo que até o momento foram executadas 53% das obras civis. Com início em 2010, a previsão para inicio de operação da usina é 2018. Segundo os técnicos que nos acompanharam, haverá em média cinco mil funcionários trabalhando no pico das obras em Angra 3. As proporções são gigantescas, e todo cuidado é pouco quando se trata da projeção e construção de um reator nuclear. Para que nenhuma etapa se sobreponha a outra, e impeça a continuação da obra, um modelo reduzido foi construído. São tantos detalhes e processos tão precisos que deixaria qualquer engenheiro boquiaberto.


Foto: Usina Nuclear Angra 3

A futura usina será idêntica a de Angra 2. De tecnologia Alemã, esta segunda opera desde 2001, época do famoso apagão no Brasil, e foi de extrema importância para que o cenário não se tornasse ainda pior. Em 2013, a produção de energia elétrica de Angra 1 e Angra 2, representou 2,78% da geração de energia elétrica do Sistema Interligado Nacional (SIN). Com as três usinas em operação, o complexo nuclear de Angra dos Reis será capaz de atender a cerca de 60% da demanda energética do Estado do Rio de Janeiro, se considerarmos os dados de 2013 (Eletrobras, 2014).


Visitamos também a central de operações de Angra 2. Com profissionais altamente qualificados, os técnicos responsáveis pela operação das usinas passam constantemente por treinamentos e testes de toda natureza, estando totalmente preparados para qualquer situação adversa ou de emergência. Por fim, conhecemos o Centro de Gerenciamento de Rejeitos – CGR, e confesso que estava bastante curiosa. Os rejeitos radioativos possuem três classificações: baixo, médio e alto níveis de radiação. A parte em que visitamos recebe os rejeitos de classe baixa, compostos basicamente por materiais ligeiramente contaminados, como roupas, ferramentas, papéis e plásticos. Antes de serem armazenados os rejeitos são compactados por prensas para otimizar o espaço do galpão.

Foto: Usina Nuclear Angra 2

Todo automatizado, o galpão é operado por poucos profissionais, que passam por um rigoroso processo de análise do nível de exposição à radiação, sendo nulo normalmente. O rejeito com maior nível de radiação é o combustível nuclear utilizado para abastecer as usinas. Este fica armazenado em piscinas dentro de cada central nuclear que a produziu. Diversas medições são feitas para garantir que o nível seja mantido abaixo dos padrões internacionais de segurança para os trabalhadores, população e meio ambiente. Em caso de qualquer anormalidade, existe um plano de emergência para proteção da população do entorno. Quanto à destinação final dos rejeitos radioativos, o Brasil ainda não possui um local definido. Desta forma, os de baixa e média classificação poderão ser armazenados nas centrais nucleares até 2020, e depois deverão ser encaminhados a um futuro repositório nacional. O combustível usado é considerado rejeito porque ainda não possuímos técnicas de reciclagem e reprocessamento no país. Este também deverá ser encaminhado para um depósito final.

Foto: Depósito de Rejeitos da Central Nuclear

Como forma de compensação ambiental durante o processo de licenciamento de Angra 3, são realizados diversos investimentos em infraestrutura e atividades voltadas a para saúde, educação, turismo e cultura, meio ambiente, serviços públicos, saneamento, dentre outros, principalmente com as prefeituras municipais de Angra dos Reis, Paraty e Rio Claro. Os investimentos vão desde construção de creches, melhorias na qualidade de ensino, conservação da estrada, compra de equipamentos hospitalares, dentre outros. Serão aplicados recursos para o beneficiamento e reciclagem dos resíduos gerados nas obras de Angra 3, em área previamente selecionada. Bem como apoio a estruturação e implantação da cooperativa de catadores de materiais recicláveis de Paraty, que será responsável pela triagem dos materiais recebidos da coleta seletiva do município.

O Brasil possui uma das maiores reservas de urânio do mundo, na mina de Caetité, localizada na Bahia, e o metal não possui outro uso industrial que não seja para combustível nuclear. As reservas existentes no Brasil são suficientes para o suprimento de Angra 1, Angra 2 e Angra 3 por 100 anos. Este fato, aliado com a possibilidade de extensão de vida útil das usinas se torna uma grande vantagem na questão de segurança energética. Os impactos da exploração do urânio são os mesmos causados pelas atividades de mineração, se diferenciando no tratamento dos rejeitos radioativos.

Assim como as termelétricas, a energia nuclear é uma fonte não renovável, porém, não emite Gases de Efeito Estufa – GEE. Acredito que o ponto mais crítico neste processo é a falta de gerenciamento do Brasil quanto à destinação final dos rejeitos radiativos, tendo em vista que os de alta radiatividade podem durar centenas de anos. Devemos avançar com prioridade e urgência no projeto de definição do local do repositório nacional, de modo a garantir que os rejeitos continuem a ser guardados de forma segura.

Apesar dos desafios enfrentados na geração de energia nuclear, as atuais Angra 1, 2 e futura Angra 3, são alternativas que no cenário atual são indispensáveis para o sistema integrado nacional de distribuição de energia. Especialmente por estarem próximas aos principais centros consumidores do sudeste do país. Necessitamos da geração de energia para o continuo progresso e desenvolvimento do país, e assim como qualquer atividade, gera resíduos e rejeitos. No momento, a empresa atua da melhor forma para maximizar os pontos positivos da geração de energia e minimizar seus impactos negativos gerados pela sua atividade.


Confira o funcionamento de uma usina nuclear PWR:

  • A fissão dos átomos de urânio dentro das varetas do elemento combustível aquece a água que passa pelo reator a uma temperatura de 320 graus Celsius. Para que não entre em ebulição – o que ocorreria normalmente aos 100 graus Celsius -, esta água é mantida sob uma pressão 157 vezes maior que a pressão atmosférica.
  • O gerador de vapor realiza uma troca de calor entre as águas deste primeiro circuito e a do circuito secundário, que são independentes entre si. Com essa troca de calor, a água do circuito secundário se transforma em vapor e movimenta a turbina - a uma velocidade de 1.800 rpm - que, por sua vez, aciona o gerador elétrico.
  • Esse vapor, depois de mover a turbina, passa por um condensador, onde é refrigerado pela água do mar, trazida por um terceiro circuito independente. A existência desses três circuitos impede o contato da água que passa pelo reator com a dos demais.
  • Uma usina nuclear oferece elevado grau de proteção, pois funciona com sistemas de segurança redundantes e independentes (quando somente um é necessário).

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