quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Porque o saneamento básico é a maior tragédia brasileira

Imagem: Trata Brasil

Não são poucas, definitivamente, as mazelas brasileiras. Em tempos sombrios e incertos como o atual, elas saltam ainda mais aos olhos, nos deprimem, enojam, nos desesperam. A despeito de tudo isso (e, é claro, deixando de lado as excelentes qualidades de nosso país), digo sem pestanejar: o saneamento básico – ou sua ausência – é a maior de todas as tragédias brasileiras.


Saneamento básico como entendemos hoje é o conjunto de serviços que os cidadãos têm a fim de prevenir doenças, promover a saúde e melhorar sua qualidade de vida como um todo. Falamos aqui de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, dragagem, disposição de resíduos sólidos, manejo de águas pluviais e outros. Mas os serviços mais comumente associados ao saneamento básico – e aqueles que mais dramática torna nossa situação – são o provimento de água limpa e a coleta e tratamento do esgoto.

A história do saneamento básico no Brasil é recente, assim como de nossa nação independente. As primeiras obras de infraestrutura com esse fim foram concebidas na capital imperial, em meados do século XIX. Aos poucos, e bem lentamente, outras cidades brasileiras construíram seus primeiros sistemas de esgotamento, modernizaram antigos aquedutos, começaram a prover um serviço de maior qualidade aos cidadãos. Ao longo do século XX, passamos de menos de 10% da população brasileira sem água tratada em suas torneiras para mais de 170 milhões com esse bem básico. Banheiros, um luxo há 150 anos, é um dado nas casas brasileiras.

Imagem: 

Mas não se engane. Nossa realidade é ainda muito aquém do que qualquer concepção humanitária poderia supor que tivéssemos em pleno século XXI. Há, hoje, no Brasil, mais de 35 milhões de cidadãos que não tem acesso a água potável de qualidade. Pessoas que não podem abrir a torneira e beber água para saciar sua sede, que encontram n dificuldades para este que deveria ser corriqueiro, banal. Paradoxalmente, quase 40% da água tratada no Brasil não chega a nossas torneiras, ou se perdem em vazamentos e má conservação da tubulação ou são simplesmente furtadas por terceiros – há estados em nossa federação que a porcentagem de perda de água passa dos 75%, como no Amapá.

Imagem: Trata Brasil

Mas os números do esgotamento sanitário são ainda mais trágicos. No Brasil, mais de 100 milhões de brasileiros, mais da metade de nossa população, não têm acesso a coleta de esgoto. Ou acabam optando por soluções comunitárias e individuais, como fossas sépticas, ou simplesmente convivem com valões a céu aberto na mesma área onde brincam seus filhos.

Além disso, desse esgoto coletado, somente cerca de 40% é tratado. Ou seja, mesmo aquele esgoto coletado por uma concessionária é apenas transportado para fora de seu banheiro, mas é despejado, às vezes in natura, no corpo hídrico mais próximo. Somando esses dois números, concluímos que apenas 1 a cada 5 brasileiros tem seu esgoto coletado e tratado. Os outros 4 ficam à mercê da ação da natureza.


E quando exponho que ficam à mercê é porque os dados corroboram com essa afirmação. Ficam à mercê porque quase ¼ de enfermidades e mortes prematuras tem relação direta a exposição a ambientes insalubres. Mais de 90% das mortes por diarreia aguda atingem a população abaixo dos 15 anos e com relação direta a insalubridade. No Brasil, somente no ano passado, registramos cerca de 15 milhões de casos de afastamento por diarreia e vômito.

Imagem: Pinterest

O mais impressionante é que mesmo que sejamos capitalistas sanguinários sem qualquer preocupação com a vida de um semelhante, ainda assim o investimento no saneamento básico faz sentido econômico. Expandindo a velha máxima que R$ 1 investido em saneamento equivale a R$ 4 reais que se deixa de gastar em saúde, o custo econômico das enfermidades ocasionadas pela falta de saneamento é monstruoso.

Estima-se, por exemplo, que em 2015 gastou-se quase R$ 1 bilhão somente com horas não trabalhadas de enfermidades relacionadas a falta de saneamento. Os gastos dessas no SUS chegam a R$ 100 milhões. Em uma projeção até universalização do saneamento até 2033 – a meta que o governo brasileiro estabeleceu – estima-se um gasto total de R$ 7,2 bilhões somente no SUS por conta da falta de saneamento básico.

Imagem: Câmara de Iúna

O problema é que essa universalização em menos de 20 anos não tende a se concretizar, se considerarmos o atual esforço do governo brasileiro. Seria necessário um investimento estimado de meio trilhão de reais até 2033. Contudo, no atual ritmo de investimento, já se projeta que a universalização só aconteceria em 2054. E isso desconsiderando os atuais ajustes fiscais do governo Temer. O saneamento básico é e continuará sendo uma grande tragédia nacional. A maior. E, infelizmente, aparentemente, ainda por um bom tempo.


Clique aqui para ler mais artigos de Fernando Malta






0 comentários:

Postar um comentário