quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O que a etiqueta não mostra! Os impactos socioambientais da moda tradicional

O desenvolvimento e, principalmente, a expansão da moda sustentável passa obrigatoriamente pela necessidade do consumo ser feito de maneira consciente. Para que as empresas se tornem cada vez mais transparentes na divulgação de informações ao público, é preciso que o mesmo saiba exatamente o que exigir dessas marcas.

Imagem: Autossustentável

Justamente por isto, hoje falaremos sobre como podemos nos tornar consumidores mais conscientes no segmento da moda. Uma boa forma de iniciar a jornada em busca do consumo consciente é tomar conhecimento sobre como os produtos que mais utilizamos em nosso dia a dia, tais como: o algodão, o jeans, a viscose e o poliéster, chegam até nós.

Vivemos em uma maravilhosa época onde a informação circula em velocidade cada vez maior e onde há conexão quase absoluta entre todas as partes do mundo. Mas será que em meio a esse turbilhão de dados que nos bombardeiam a cada minuto conseguimos filtrar aquelas que de fato nos seriam úteis? Aquelas que nos ajudariam a tomar melhores decisões sobre consumo, bem estar e satisfação? Será que ao adquirir uma peça de roupa, nos preocupamos com outras variáveis além do preço? Será que nos perguntamos qual foi o caminho que ela fez até chegar ao nosso guarda roupa? Será que sabemos que determinados tecidos são extremamente poluentes e degradantes tanto ambientalmente quanto socialmente? Aquela peça de roupa super baratinha daquele site chinês ou aquelas das liquidações das grandes lojas de departamento que aparentam ser ótimas escolhas para aquisição, na maioria das vezes escondem por trás da etiqueta uma história que a maior parte dos consumidores desconhece.

Camisas de algodão. Imagem: GazabPost

Algodão é a fibra natural que representa 90% de todas as fibras naturais usadas na indústria da moda e que está presente em mais da metade das peças de vestuário confeccionadas no Brasil. A primeira vista, a palavra natural pode representar algo positivo, afinal não é um tecido que vem diretamente da natureza. Que mal poderia haver? Bem, o cultivo de algodão necessita de grandes quantidades de água e de irrigação extensiva se cultivado fora de seu ambiente natural. Para se criar 1 quilo de algodão, são necessários cerca de 30.000 litros de água! E 1 camisa de algodão usa aproximadamente 2.700 litros de água! Isso sem contar a utilização de defensivos agrícolas, já que o cultivo de algodão responde por 24% de todo o consumo de inseticidas e 11% dos pesticidas utilizados na agricultura mundial. O algodão é também aquele que consome maior quantidade de energia em seu processo produtivo, aqui incluem-se o combustível das máquinas agrícolas que realizam a colheita, a energia das máquinas de fiação e dos processos de lavagem, secagem e ferro de passar.

Imagem: Look Forward

Desta forma, você pode imaginar os tipos de impactos resultantes do cultivo desta fibra natural. São impactos ambientais e sociais preocupantes como a degradação do solo, lençóis freáticos e rios por conta do uso de defensivos; problemas de saúde causados pelo manuseio e contato com inseticidas e pesticidas, e também pela ingestão de água que esteja contaminada por essas substâncias; o desenvolvimento da bissinose, uma disfunção pulmonar causada pela aspiração crônica de fibrilas de algodão. Além destes, também é necessário ressaltar a geração dos resíduos têxteis, que no Brasil representam 175.000 toneladas/ano, onde somente 36.000 toneladas são reaproveitadas, devido ao curto comprimento das mesmas, para fazer barbantes, novas peças de roupas e fios, e também para a fabricação de estopas, colchões e mobiliários.

Imagem: Textile Excellence

O jeans é prático e versátil, uma peça coringa, tanto que é bem difícil que alguém não possua uma calça jeans em seu guarda roupa. Mas você sabe como ocorre o processo de fabricação dessa maravilhosa invenção? Sabia que o jeans é uma das peças mais poluentes do vestuário? A começar pela produção do denim, um tecido de algodão base do jeans, que consome durante o processo grandes quantidades de água, energia e corantes a base de produtos químicos altamente prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. Passando pela logística de distribuição e entrega, que majoritariamente atravessa o globo, já que as grandes fábricas de jeans se encontram na Ásia, notadamente na China e Índia. Nessa conta também entram as embalagens que acompanham os produtos e a destinação muitas vezes incorreta das mesmas. E não podemos esquecer da água e produtos químicos utilizados por nós para a lavagem e higienização dos nossos jeans. Está faltando ainda a última ponta do processo, o descarte das peças que não utilizamos mais. Qual o destino que você dá ao jeans após o uso? Vamos nos atentar que uma calça jeans leva cerca de um ano para se decompor na natureza.

Imagem: Estácio

Podemos acompanhar o quanto a produção do jeans provoca impactos socioambientais no documentário canadense RiverBlue, que mostra como a produção de bilhões de peças jeans anualmente polui rios, lagos, mares e reservatórios devido ao tingimento de tecidos. Extremamente tóxica, comprometendo a saúde dos trabalhadores dessas fábricas e também das comunidades em seu entorno, o processo de produção do denim exige várias lavagens químicas intensivas, sendo esses resíduos despejados, na maioria das vezes em rios. No documentário é mostrado que são identificados cinco metais pesados (cádmio, cromo, mercúrio, chumbo e cobre) no rio que corta Xintang, a cidade chinesa conhecida como a capital mundial de fabricação de jeans (1 em cada 3 pares de jeans vendidos no mundo é produzido nesta cidade). Esses metais pesados são neurotóxicos, cancerígenos, perturbando o sistema endócrino e causando câncer em diferentes órgãos. Ao preço da saúde da população e da destruição de suas fontes de água, a China se torna a “Fábrica do Mundo”.

Trailer do documentário RiverBlue que mostra toda poluição dos rios causada pelo processo de tingimento de tecidos, lavanderias de jeans e curtumes de couros.

A viscose, fibra artificial feita a partir de celulose, mais especificamente cavacos de madeira e de árvores de rápido crescimento que possuem pouca resina, é usada em larga escala, servindo inclusive como forro para peças de outros materiais, perdendo em usabilidade apenas para o poliéster e algodão. Apesar desta fibra ser proveniente de fonte renováveis, seu amplo emprego ocasiona vários impactos, que muitas vezes por ocorrerem longe de nós, acabamos não tendo conhecimento.

Imagem: Silent Inc
Imagem: Flash la Revista

Os problemas se iniciam com o processo extrativo da matéria prima, de acordo com informações do site Modefica, cerca de 30% da viscose produzida é proveniente de árvores de florestas nativas e ameaçadas de extinção, como a Amazônia. Na lista dos países que mais desmatam estão Indonésia, Brasil e Canadá que em 2010 foram responsáveis por cerca de 2/3 de toda a importação de polpa de viscose pela China. Desse montante, 75% foram transformados em tecidos para indústria da moda. Durante o processo produtivo no qual a polpa da madeira é transformada em fibra de celulose e em seguida em fios de viscose são utilizados produtos químicos como soda cáustica e ácido sulfúrico, sendo emitidos sulfeto de carbono e gás sulfídrico, dois gases que apresentam efeitos tóxicos significativos à saúde dos trabalhadores desse segmento. Além disso, a produção de viscose demanda uso excessivo de energia e de água – para cada quilo de viscose produzida são utilizados 640 litros de água! – e grande parte do material é descartada durante o processo (cerca de 70%).

Desmatamento produzido pela indústria da moda tradicional. Imagem: One Green Planet

E com as exigências do modelo Fast Fashion, maior produção com menores custos, a maior parte dos tecidos de viscose hoje são tecidos de baixa qualidade e durabilidade, fato que potencializa a dimensão do descarte. Essa equação ainda possui um último fator agravante, apenas 0,1% dos tecidos de viscose são reciclados. Como podemos observar, são vários os impactos socioambientais que a produção de viscose ocasiona, desde o desmatamento que gera perda de biodiversidade e violações de direitos humanos relativos aos trabalhadores e as comunidades nativas dessas florestas, passando pelas implicações à saúde dos trabalhadores dessas indústrias, até a questão do descarte de volume cada vez maior de tecido, agravando a situação dos aterros sanitários.

Montanha de lixo formada por roupas. Imagem: GreenMe

O que conhecemos como poliéster é o polietileno tereftalato, mais conhecido como PET. Em sua maioria os poliésteres são termoplásticos, possuindo várias aplicações em nosso cotidiano, como garrafas de plástico, material isolante, filmes, filtros, tintas em pó, telas de LED e, principalmente, tecidos e malhas utilizados em roupas, lençóis, cortinas, móveis e estofados. Isto porque o tecido de poliéster possui maior durabilidade, retenção de cor e resistência a rugosidades, quando comparado com tecidos naturais como o algodão. Por essa razão é bem comum a mistura do poliéster com tecidos naturais a fim de combinar as características de ambos os tecidos.

Imagem: Industria Outpost

Produzido a partir de petróleo ou de gás natural, matérias primas não renováveis e poluentes, a produção de poliéster causa diversos danos ambientais, uma vez que também são emitidos compostos orgânicos voláteis (VOC) e efluentes contendo antimônio. Ademais, durante o processo produtivo demanda grandes quantidades de água para resfriamento, juntamente com uma grande quantidade de químicos nocivos, que podem se tornar fontes de contaminação. Para que 1 quilo de poliéster seja produzido são gastos 20 litros de água. O processo de produção utiliza ainda grandes quantidades de energia, correspondendo à etapa de extração das matérias primas e transformação em produto final, o dobro de energia que a produção de algodão convencional.

Visão ampliada de microplásticos na ponta de um dedo. Imagem: Igui Ecologia

Além destes, existem outros impactos socioambientais resultantes da produção do poliéster em decorrência do mesmo não ser biodegradável e levar cerca de 400 anos para se decompor. Sendo o pior deles a contaminação por microplásticos (pequenas partículas plásticas com menos de um milímetro de diâmetro) que acabam se desgarrando das fibras do tecido e vão parar nos rios, mares e oceanos, prejudicando ecossistemas. Para se ter ideia, em uma simples lavagem, uma peça de roupa de poliéster pode soltar até 1900 microfibras! Essa água utilizada na lavagem segue para corpos d'água e oceanos, onde pequenos animais se alimentam desses microplásticos propagando a intoxicação ao longo da cadeia alimentar até chegar aos seres humanos. Sim, já estamos consumindo peixes contaminados com microplásticos, pois grande parte das superfícies dos oceanos já está contaminada por com esse material. Estamos vivenciando contaminação do meio ambiente e da saúde do planeta e a nossa própria, porque estamos poluindo o planeta com um produto tóxico que não é biocompatível.


Vídeo do canal
Minuto da Terra que aborda os microplásticos e a poluição nos oceanos.


Mas por que não reciclar? Como a maioria das roupas é feita por tecidos híbridos, pela junção do poliéster a alguma fibra natural, isso dificulta o processo de reciclagem, uma vez que, a tecnologia de reciclagem química para separar as fibras e reaproveitá-las em novas fibras não está implementada industrialmente. Outro problema é o custo, já que uma fibra de poliéster reciclada é cerca de 20% mais cara do que uma virgem, possuindo uma menor qualidade que a segunda.

Como podemos ver nessa breve exposição, são vários os custos, manifestados em graves impactos socioambientais, do modelo atual de produção têxtil da moda tradicional e de consumo, transformado em consumismo pelo sistema Fast Fashion. O que apresentamos aqui é só uma pontinha de tudo que acontece por detrás dos holofotes dos grandes e tradicionais desfiles de semanas de moda; de campanhas publicitárias que nos impelem a consumir a calça da estação, a jaqueta do momento, o vestido da coleção x da marca y; o calçado da instagrammer fulana de tal que parece tão lindo e popular. Somos programados cada vez mais cedo a associar felicidade a consumo. Sim, precisamos consumir para nosso bem estar, mas será que essa velocidade imposta trará felicidade ou angústia por não termos condições de consumir tudo aquilo que nos é apresentado como último grito da moda? Será que o descarte cada vez mais frequente e rápido vale o preço da satisfação momentânea em adquirir uma peça de roupa, um calçado ou maquiagem? 


O processo de conscientização sobre o consumo é algo realmente necessário para que nosso planeta não seja cada vez mais devastado e para que a saúde da sociedade seja preservada, mas também é necessário para nosso bem estar, para desconstruirmos essa necessidade incessante de comprar estimulada por todos os meios em todos os lugares. Como dica, para aqueles que pretendem mergulhar mais fundo no assunto, sugiro o documentário “The True Cost” – vocês podem conferir o trailer no vídeo aqui em cima – que trata exatamente do custo real da moda por um lado que dificilmente é mostrado.


Para aqueles que querem conhecer iniciativas e marcas que estão procurando mudar esse cenário e fazer a moda mais sustentável, é só acompanhar o próximo post, pois traremos algumas novidades a respeito.



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